A Europa, em especial a França, tem encontrado nos últimos anos uma dificuldade enorme em integrar sua população, segregada entre nativos e imigrantes. Mesmo com leis rígidas que buscam dificultar as imigrações, as populações de não-europeus e seus descendentes, é cada vez maior em praticamente todos os países do continente. A Espanha, por exemplo, tem criado mecanismos rigorosos para conter o fluxo de estrangeiros para dentro de suas fronteiras. O tema tem se tornado central em disputas eleitorais na região, tendo inclusive levado o líder de extrema-direita Jean-Marie Le Pen ao segundo turno das eleições francesas em 2002. Lê Pen baseou toda sua campanha num nacionalismo radical e na aversão aos imigrantes.
O fato é que, se de um lado crescem as ações governamentais visando a reduzir a entrada de imigrantes em seus países. De outro se difunde por todo o continente a proliferação de diversos grupos xenófobos, inclusive neonazistas. Estes grupos pressionam os parlamentos de seus países para que enrijeçam ainda mais as leis anti-imigração e para que considerem os imigrantes já instalados em território europeu, cidadãos de segunda classe. Para os adeptos destes grupos, os problemas vividos por seus países são reflexos do excesso de imigrantes.
Esta dificuldade em integrar suas populações torna-se ainda mais tensa quando são levados em conta os problemas sociais. Especificamente na França, é comum vermos nos noticiários as explosões sociais deflagradas nos subúrbios das grandes cidades como Paris, Marselha e Lyon. Com populações majoritariamente de imigrantes, estas regiões são as que mais sofrem com as consequências da crise econômica e do desemprego. Estima-se que cerca de um terço da população destas áreas esteja abaixo da linha da pobreza (Folha de São Paulo, 07/11/2010 – A22). Desde, pelo menos 2005, estes desequilíbrios sociais tem levado a conflitos armados entre a sociedade e o Estado. O então Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, alçou sua popularidade nesta época pela maneira como combateu os primeiros focos de manifestações. O agora presidente francês, afirmava que a origem dos conflitos encontrava-se na poligamia dos moradores destas regiões, majoritariamente africanos. Empurrando a questão para fatores culturais o Estado combateu os manifestantes com exemplar rigidez. Se não serviu para resolver os problemas sociais franceses, a conduta de Sarkozy, ampliou sua popularidade e o cacifou para assumir a presidência de seu país em 2007.
Agora, em 2010, impulsionados pela aprovação, no Parlamento Francês, de uma Reforma Previdenciária que aumenta em dois anos a idade mínima para se aposentar, os conflitos e manifestações sociais mais uma vez se acirram na França.
Especialistas na questão são contundentes em afirmar que enquanto os países europeus não substituírem suas políticas de combate truculento aos movimentos sociais por outras de cunho mais humano, as manifestações violentas não cessarão. O caminho consiste em integrar cultural e socialmente a população europeia reduzindo ao máximo a distância econômica e social que se impõe como um muro entre setores da população. A criação de canais de comunicação verdadeiramente democráticos pelos quais os marginalizados possam se expressar pacificamente é um dos primeiros passos para o fim dos distúrbios e dos conflitos.
Olhando o caso francês, é possível percebermos o quanto nosso país esta no caminho certo. Mesmo lento em sua marcha por reduzir as desigualdades regionais e sociais, o Brasil vem caminhando indiscutivelmente neste sentido. A desigualdade de renda, seja avaliada pelo Índice de Gini, seja por seu componente funcional, tem se reduzido sensivelmente nos últimos anos (Veja o post “Alguns Dados...”, neste Blog). Infelizmente, no entanto, recentemente temos ouvido o gritar estridente de vozes que tentam implantar a segregação cultural, regional e social em nosso país. Sabemos que estas vozes não estão isoladas. Basta o convívio com setores da classe média-alta paulista para percebermos que esta visão, expressa por “neofascistazinhos” em suas redes sociais, estão enraizadas em grande parte de nossa sociedade. Esta “fina flor da sociedade do sul” que tanto admira tudo que é “de fora”, talvez esteja querendo importar mais um artigo francês para nossa “pobre colônia”.
Que eles não triunfem e o Brasil prossiga e radicalize o caminho da união e da igualdade, contra a segregação e a exclusão.
Afinal, olhando do Brasil, a Europa é o Nordeste. Da Europa, nosso Nordeste é Sul. Na América, somos todos do Sul. Tudo nos une. Só nos separa a ignorância e a escuridão.



