domingo, 7 de novembro de 2010

Na América, somos todos do Sul

A Europa, em especial a França, tem encontrado nos últimos anos uma dificuldade enorme em integrar sua população, segregada entre nativos e imigrantes. Mesmo com leis rígidas que buscam dificultar as imigrações, as populações de não-europeus e seus descendentes, é cada vez maior em praticamente todos os países do continente. A Espanha, por exemplo, tem criado mecanismos rigorosos para conter o fluxo de estrangeiros para dentro de suas fronteiras. O tema tem se tornado central em disputas eleitorais na região, tendo inclusive levado o líder de extrema-direita Jean-Marie Le Pen ao segundo turno das eleições francesas em 2002. Lê Pen baseou toda sua campanha num nacionalismo radical e na aversão aos imigrantes.
O fato é que, se de um lado crescem as ações governamentais visando a reduzir a entrada de imigrantes em seus países. De outro se difunde por todo o continente a proliferação de diversos grupos xenófobos, inclusive neonazistas. Estes grupos pressionam os parlamentos de seus países para que enrijeçam ainda mais as leis anti-imigração e para que considerem os imigrantes já instalados em território europeu, cidadãos de segunda classe. Para os adeptos destes grupos, os problemas vividos por seus países são reflexos do excesso de imigrantes.
Esta dificuldade em integrar suas populações torna-se ainda mais tensa quando são levados em conta os problemas sociais. Especificamente na França, é comum vermos nos noticiários as explosões sociais deflagradas nos subúrbios das grandes cidades como Paris, Marselha e Lyon. Com populações majoritariamente de imigrantes, estas regiões são as que mais sofrem com as consequências da crise econômica e do desemprego. Estima-se que cerca de um terço da população destas áreas esteja abaixo da linha da pobreza (Folha de São Paulo, 07/11/2010 – A22). Desde, pelo menos 2005, estes desequilíbrios sociais tem levado a conflitos armados entre a sociedade e o Estado. O então Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, alçou sua popularidade nesta época pela maneira como combateu os primeiros focos de manifestações. O agora presidente francês, afirmava que a origem dos conflitos encontrava-se na poligamia dos moradores destas regiões, majoritariamente africanos. Empurrando a questão para fatores culturais o Estado combateu os manifestantes com exemplar rigidez. Se não serviu para resolver os problemas sociais franceses, a conduta de Sarkozy, ampliou sua popularidade e o cacifou para assumir a presidência de seu país em 2007.
Agora, em 2010, impulsionados pela aprovação, no Parlamento Francês, de uma Reforma Previdenciária que aumenta em dois anos a idade mínima para se aposentar, os conflitos e manifestações sociais mais uma vez se acirram na França.
Especialistas na questão são contundentes em afirmar que enquanto os países europeus não substituírem suas políticas de combate truculento aos movimentos sociais por outras de cunho mais humano, as manifestações violentas não cessarão. O caminho consiste em integrar cultural e socialmente a população europeia reduzindo ao máximo a distância econômica e social que se impõe como um muro entre setores da população. A criação de canais de comunicação verdadeiramente democráticos pelos quais os marginalizados possam se expressar pacificamente é um dos primeiros passos para o fim dos distúrbios e dos conflitos.
Olhando o caso francês, é possível percebermos o quanto nosso país esta no caminho certo. Mesmo lento em sua marcha por reduzir as desigualdades regionais e sociais, o Brasil vem caminhando indiscutivelmente neste sentido. A desigualdade de renda, seja avaliada pelo Índice de Gini, seja por seu componente funcional, tem se reduzido sensivelmente nos últimos anos (Veja o post “Alguns Dados...”, neste Blog). Infelizmente, no entanto, recentemente temos ouvido o gritar estridente de vozes que tentam implantar a segregação cultural, regional e social em nosso país. Sabemos que estas vozes não estão isoladas. Basta o convívio com setores da classe média-alta paulista para percebermos que esta visão, expressa por “neofascistazinhos” em suas redes sociais, estão enraizadas em grande parte de nossa sociedade. Esta “fina flor da sociedade do sul” que tanto admira tudo que é “de fora”, talvez esteja querendo importar mais um artigo francês para nossa “pobre colônia”.
Que eles não triunfem e o Brasil prossiga e radicalize o caminho da união e da igualdade, contra a segregação e a exclusão.
Afinal, olhando do Brasil, a Europa é o Nordeste. Da Europa, nosso Nordeste é Sul. Na América, somos todos do Sul. Tudo nos une. Só nos separa a ignorância e a escuridão. 

terça-feira, 2 de novembro de 2010

"Sobre menininhos e burros" ou "Viva Dilma, a primeira mulher presidente do Brasil".

Encerradas as eleições presidenciais deste ano, sai vitorioso o projeto encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores e representado na candidatura Dilma Vana Rousseff. Sua conquista indica obviamente, como já vinha sendo demonstrado nas pesquisas de satisfação, a aprovação do governo do presidente Lula.
A vitória foi incontestável, tendo alcançado, a candidata governista, 12 milhões de votos a mais que seu adversário. Diante deste quadro, é comovente o clima de euforia em torno da eleição da primeira mulher à presidência da república de nosso país. Só por este motivo, o dia 31/10/2010 já está registrado em nossos livros de história. Mais além, no entanto, vai a forte consolidação de nossa ainda infante democracia, que irá assistir em primeiro de janeiro à segunda sucessão presidencial consecutiva envolvendo dois líderes eleitos diretamente pelo voto popular, fato quase inédito no Brasil. Lula que sucedeu FHC, agora transmite a presidência a Dilma; os três, presidentes eleitos de forma direta. Antes deles, a única vez que isto ocorreu no Brasil, foi nas sucessões entre Prudente de Morais - Campos Salles - Rodrigues Alves, no final do século XIX.
Em nome da euforia, no entanto, não se deve omitir o alto nível de despolitização que tomou conta desta campanha presidencial. Os principais temas discutidos, especialmente no segundo turno, passaram longe das necessidades mais básicas de nosso povo. Temas como aborto, supostas agressões e a fé dos candidatos não deveriam ter sido utilizados como foram. Que este mal exemplo tenha tido sua vida encerrada neste ciclo eleitoral, e que doravante as eleições tratem de temas realmente relevantes.
Em segundo lugar, outra mancha triste neste processo ficou por conta das análises altamente preconceituosas e fortemente carentes de racionalidade feitas ao calor dos resultados eleitorais. Encampadas abertamente por setores fascistas de nossa sociedade "sulista", estas análises também permeiam alguns discursos menos eufóricos, mas não menos preconceituosos de setores da imprensa, da academia e de eleitores comuns em suas redes sociais. Tais análises buscam encontrar os motivos do êxito da candidata governista numa divisão maniqueísta entre "burros" e civilizados que geograficamente se sobrepõe à divisão Norte-Nordeste versus Sul-São Paulo no Brasil. Os "burros", pobres e vendidos do Nordeste teriam eleito Dilma, contra a vontade da sociedade civilizada do Sul e de São Paulo. Minas Gerais e Rio de Janeiro, foram estrategicamente "rebaixados" à categoria de nordestinos.
Não bastasse o baixo grau de senso democrático destas análises, elas pecam também por outros fatores. Denotar como burro, um eleitor que, ao perceber sua vida melhorar relaciona tal fato a algumas ações e programas políticos de seus governantes é subjulgar o papel da política em nossa vida. Burro deveria ser chamado aquele incapaz de fazer tal relação. Aquele que ao ser contratado em um novo emprego ou ter ampliado seus rendimentos visualiza nestes fatos apenas consequências de seus méritos. Não consegue entender que se a economia estivesse mal e o desemprego em alta, por exemplo, aquela mesma empresa poderia estar falida e sua situação ser completamente diferente. Neste caso, seus méritos de nada valeriam. Burrice é não conseguir entender que o homem é um animal político e social e que indivíduos independentes e isolados só existem na abstração acadêmica. Perceber que a melhoria em sua vida tem origem na política é sinal de inteligência e não de burrice. Assim, votar na continuidade de um modelo que, julga-se, deu certo é sinal de maturidade política. Com maturidade política, não se vota em pessoas, mas sim em modelos e em projetos. Dilma é desconhecida, se expressa mal, não é carismática, nunca disputou uma eleição, mas representa um modelo que a maioria da população considera exitoso e, portanto merece ser continuado. Esta é uma análise inteligente e madura!
Por fim, e ainda no mesmo tema o mapa político construído por estes analistas apressados é falho e simplório. Dilma teve sim uma vitória consagradora nas regiões Norte e Nordeste, mas também venceu na região Sudeste, que é composta, sim, por Minas Gerais e Rio de Janeiro. Dilma teve nada menos que 10 milhões de votos em São Paulo (46%), e 7,2 milhões de votos na Região Sul do país, mais de 45%. Ou seja, praticamente a metade da população destes quatro estados votaram na candidata governista. Tal fato faz com que, mesmo que fossem excluídos os votos de Norte e Nordeste, Dilma seria eleita a presidenta deste "frio" e infeliz país do Centro-Sul. Para a sorte de todos nós, Dilma é a presidenta de todos os brasileiros e, tudo indica, manterá em marcha o aprovado modo de governar do presidente Lula, que dentre outras coisas levou a ascensão social  mais de 58 milhões de pessoas, retomou os investimentos em infraestrutura, ressuscitou a indústria naval, retirou o país da crise em menos de um ano, trouxe luz e crédito para os pequenos agricultores e encaminhou a economia nacional para um crescimento de mais de 6% no ano vigente.
O país deve continuar neste caminho por, no mínimo, mais quatro anos, pois assim decidiram os 70% de "burros" do Nordeste e os 45% de "burros" do Sul. Os 55% de "sumo-inteligências sulinas" continuarão ganhando, e muito, com a decisão dos "burros", mas nada mudará sua opinião de que seus lucros derivam apenas de seus méritos individuais.
Deixe que pensem assim, pois enquanto eles vão urrando, nós seguimos dirigindo esta carroça por eles puxada.