quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Tem gente que morre sem querer morrer

Em época de eleições um eterno figurante assume, mesmo que demagogicamente, o papel de protagonista em nosso circense modelinho político e econômico de viver. Alguns o chamam de povo, outros de massa, pobres, classe baixa, excluídos... São diversas as definições para esta fatia da sociedade que, para arrepio de muitos, ainda define qualquer eleição.
Diversas canções já foram escritas sobre este "povo". Dentre todas, duas que lembro agora, são particularmente preciosas. Uma delas, um samba de José Flores de Jesus, ou simplesmente Zé Keti, foi composta em 1965, com o título "Acender as velas". A outra, um xote de 1952, composto por Luiz Gonzaga e Guio de Moraes recebeu o nome de "Pau-de-arara". Estas duas músicas são dois retratos primorosos de nosso país, uma tratando da vida em uma favela carioca e a outra da viagem de um retirante nordestino. Estes dois perfis tão discriminados, preconceituosamente relacionados à bandidagem e à vadiagem, são na verdade, em sua maioria, "fortes", lutadores, que vivem, dia após dia, peleando para sobreviver.
Conhecê-los um pouco mais de perto ajuda a entender melhor o nosso país.

Aí vão as letras das duas canções e os links para interpretações no youtube.

Acender as velas
Acender as velas
Já é profissão
Quando não tem samba
Tem desilusão
É mais um coração
Que deixa de bater
Um anjo vai pro céu
Deus me perdoe
Mas vou dizer
O doutor chegou tarde demais
Porque no morro
Não tem automóvel pra subir
Não tem telefone pra chamar
E não tem beleza pra se ver
E a gente morre sem querer morrer

http://www.youtube.com/watch?v=VzCLgQXYdkw

Pau de arara
Quando eu vim do sertão,
seu môço, do meu Bodocó
A malota era um saco
e o cadeado era um nó
Só trazia a coragem e a cara
Viajando num pau-de-arara
Eu penei, mas aqui cheguei (bis)
Trouxe um triângulo, no matolão
Trouxe um gonguê, no matolão
Trouxe um zabumba dentro do matolão
Xóte, maracatu e baião
Tudo isso eu trouxe no meu matolão

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