Chovia, uma chuva dolorida e ácida. Uma
chuva de fogo e de gás. O medo e a dor se misturavam. O cheiro do sangue e da
carne queimada misturava-se à fumaça e impedia qualquer outra sensação
diferente de náuseas. Era madrugada, e seus pais dilacerados jaziam sob os
escombros de sua pobre casa, que naquele mesmo dia, há algumas horas foi palco
de sua última ceia. Não era claro ainda o que o futuro lhe reservava. Na TV, durante
o jantar, um homem de pele parda ditava lengalengas em uma língua para ele incompreensível.
Não parecia, mas seu futuro estava traçado. Agora, em seu desespero, não havia
espaço para o pensar. Não havia relação alguma entre a TV ligada de horas atrás
e a hecatombe há minutos detonada. Tudo era ácido, tudo era o agora.
O jovem
Moammar ainda não sabia, e nem teria tempo de saber. Mas sua sina naquela data
se uniria, e sua história se juntaria, a de muitos José’s de Granada, Mohammed’s
do Irã, Fadilah’s da Líbia e Zarah’s do vizinho Iraque. Quantos
Migueis de Nicarágua ou Ho’s do Vietnã tiveram seus destinos
traçados por homens de pele não tão parda, mas de língua tão esquisita quanto a
que ouviu durante o jantar.
Era o destino dos Moammar, ter inimigos que nem
conhecia, ter ódios que nunca via. Era o fado dos Mohammed, como seu pai,
morrer com os pés sujos de seu petróleo e as mão enlameadas de seu sangue. A história
do mundo, ainda não sabia o jovem Moammar naquela última noite de sua vida, era
escrita por homens como aquele que falava em sua TV, e não por crianças como
ele. A história agora estava sendo escrita do outro lado do globo e, enquanto
ele agonizava engasgando com seu sangue e com seu vômito, alguém discursava,
com um Nobel a tiracolo, sobre a importância da paz. A paz! A paz para Moammar
era visitar seus avós nos fins de semana, quando não tinha aulas, era correr
pelos campos, com seus primos Luloah e Samir. A paz dele não era a paz que
muitos queriam. A paz de Moammar não tinha as mãos sujas de sangue, mas de
terra. A paz de Moammar não derivava do petróleo, mas do Sol.
Mas, naquele dia
em que seu sangue valeu menos que o petróleo de seu país, Moammar caiu
derradeiramente em sua terra e viu pela última vez o seu Sol brilhar.

